Likes, aparências e a armadilha digital do reconhecimento


Likes, aparências e a armadilha digital do reconhecimento

Mariany Araújo – Jornalista

Vivemos um momento em que a validação pessoal passou a ser medida em curtidas. Nas redes sociais, onde a vida é cuidadosamente editada, o “like” se transformou em símbolo de aceitação, sucesso e até autoestima. Mas o que há por trás dessa busca incessante por aprovação digital?

A nossa necessidade de pertencimento e reconhecimento sempre existiu. O problema é que, nas redes, essa necessidade ganhou um palanque deturpado: um ambiente onde a imagem é cuidadosamente construída, os momentos difíceis são ocultados e o que se exibe, muitas vezes, não passa de aparência. E é nessa trama de aparências que muitos têm se perdido.

A comparação constante com corpos perfeitos, rotinas idealizadas e sorrisos ensaiados tem gerado um impacto direto na saúde mental e física de muitas pessoas. O corpo, a pele, o rosto, os cabelos, o vestir, o comportamento, tudo se torna sujeito de julgamento, tudo precisa estar “apresentável” para ser postado, aprovado e curtido. Uma pressão silenciosa que alimenta frustrações, distorções da autoimagem, ansiedade e até depressão.

Tornou-se comum encontrar pessoas que se sentem menos interessantes, menos bonitos ou até fracassados por não viverem o que veem nas mídias. Os filtros que “embelezam” o rosto, os aplicativos que corrigem “imperfeições” no corpo, começam a esconder a identidade real. E o risco maior é exatamente esse: deixar de viver o ser pqra viver o parecer.

A busca frenética por likes molda comportamentos. Quantas viagens foram feitas mais para serem postadas do que vividas? Quantas refeições, momentos e até gestos de afeto foram montados para parecerem espontâneos? A necessidade de aceitação virou um combustível de desgaste emocional e físico.

É urgente refletir: quem somos quando não estamos sendo vistos? Nossa vida precisa mesmo caber em um feed? A felicidade precisa ser sempre fotografada? Precisamos educar emocionalmente essa geração que cresce acreditando que a autoimagem é mais importante que o autoconhecimento.

Redes sociais podem ser ferramentas sensacionais de conexão e expressão. Mas precisam deixar de ser espelhos distorcidos onde buscamos o reflexo de quem deveríamos ser, em vez de quem realmente somos.

Cultivar a autenticidade, aprender a se valorizar para além dos números, e resgatar o prazer de viver a vida real — com suas imperfeições — talvez seja o caminho mais saudável para nos libertarmos da tirania dos likes.

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